Felicidade Clandestina

Sexta-feira, Fevereiro 20, 2004


blogger


Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004


Pequena
rosa,
rosa pequena,
às vezes,
diminuta e desnuda,
parece
que me cabes na palma
da mão,
assim vou te colher
e te levar à minha boca,
mas
de repente
meus pés tocam os teus pés e minha boca teus lábios
cresceste,
sobem teus ombros como duas colinas,
teus peitos passeiam pelo meu peito,
meu braço mal alcança a rodear
a delgada linha de lua nova que tem a tua cintura:
no amor como água de amor te desataste:
meço apenas os olhos mais extensos do céu
e me inclino à tua boca para beijar a terra.

Pablo Neruda


Ao Som de Leila Pinheiro - Tempo Perdido

Sábado, Janeiro 10, 2004


Escolha -
Elisa Lucinda

Eu te amo como um colibri resistente
incansável beija-flor que sou
batedora renitente de asas
viciada no mel que me dás depois que atravesso o deserto.
Pingas na minha boca umas gotas poucas
do que nem é uma vacina.
Eu uma mulher, uma ave, uma menina¿
Assim chacinas o meu tempo de eremita:
quebras a bengala onde me apoiei, rasgas minhas meias
as que vestiram meus pés
quando caminhei as areias.

Eu te amo como quem esquece tudo
diante de um beijo:
as inúmeras horas desbeijadas
os terríveis desabraços
os dolorosos desencaixes
que meu corpo sofreu longe do seu.
Elejo sempre o encontro
Ele é o ponto do crochê.
Penélope invertida
nada começo de novo
nada desmancho
nada volto

Teço um novo tecido de amor eterno
a cada olhar seu de afeto
não ligo para nada que doeu.
Só para o que deixou de doer tenho olhos.
Cega do infortúnio
pesco os peixes dos nossos encaixes
pesco as gozadas
as confissões de amor
as palavras fundas de prazer
as esculturas astecas que nos fixam
na história dos dias

Eu te amo.
De todos os nossos montes
fico com as encostas
De todas as nossas indagações
fico com as respostas
De todas as nossas destilairias
fico com as alegrias
De todos os nossos natais
fico com as bonecas
De todos os nossos cardumes
as moquecas.


Sexta-feira, Dezembro 12, 2003


Revolução da Alma
Roubado do blogger Correndo com Lobos

Ninguém é dono da sua felicidade,
por isso não entregue sua alegria,
sua paz, sua vida nas mãos de ninguém,
absolutamente ninguém.

Somos livres,
não pertencemos a ninguém e não podemos
querer ser donos dos desejos,
da vontade ou dos sonhos de quem quer que seja.
Se você anda repetindo muito

"eu preciso tanto de você" ou,

"você é a razão da minha vida",

cuide-se.

Remova essas palavras e principalmente
a ação dessas palavras da sua vida,
pois fazem muito mal ao seu "eu" interior.

A razão da sua vida é você mesmo.
A tua paz interior é a tua meta de vida,
quando sentires um vazio na alma,
quando acreditares que ainda está faltando algo,
mesmo tendo tudo,
remete teu pensamento para os teus desejos
mais íntimos e busque a divindade que existe em você.

Pare de colocar sua felicidade cada dia mais distante de você.
Não coloque objetivos longe demais de suas mãos,
abrace os que estão ao seu alcance hoje.

Se andas desesperado por problemas financeiros,
amorosos ou de relacionamentos familiares,
busca em teu interior a resposta para acalmar-te,
você é reflexo do que pensas diariamente.

Pare de pensar mal de você mesmo,
e seja seu melhor amigo sempre.
Sorrir significa aprovar, aceitar, felicitar.

Então abra um sorriso para aprovar
o mundo que quer oferecer o melhor.
Com um sorriso no rosto as pessoas terão as
melhores impressões de você,
e você estará afirmando para você mesmo,
que está "pronto"para ser feliz.

Trabalhe, trabalhe muito a seu favor.
Pare de esperar a felicidade sem esforços.
Pare de exigir das pessoas aquilo que nem
você conquistou ainda.

Critique menos, trabalhe mais.
E, não se esqueça nunca de agradecer.
Quando você agradece,
Deus recebe seu coração.

Agradeça tudo que está em sua vida nesse momento,
inclusive a dor .
Nossa compreensão do universo,
ainda é muito pequena para julgar o que
quer que seja na nossa vida.

Por fim,
acredite que não estamos sozinhos um instante sequer.

Você pode,
através de uma oração simples e de coração
buscar Aquele que é maior que quaisquer problemas.

Unir-se a DEUS nos momentos de alegria,
garante uma facilidade maior de contato
nos momentos menos alegres.

"A grandeza não consiste em receber honras,
mas em merecê-las."


Terça-feira, Novembro 25, 2003


É como eu sempre digo, algumas coisas tem o poder de se tornarem imortais, assim é a música, assim será Gilberto Gil.

A Linha e o Linho

E' a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e voce fosse a linha
E a agulha do real nas maos da fantasia
Fosse bordando ponto-a-ponto nosso dia-a-dia

E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
O zig-zag do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensao
Formando a petala da rosa, da paixao

A sua vida o meu caminho, nosso amor
Voce a linha e eu o linho, nosso amor
Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado
A casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a arvore, o ninho da beleza


Sexta-feira, Novembro 21, 2003



Como no palco o ator que é imperfeito
Faz mal o seu papel só por temor,
ou que, por ter repleto de ódio o peito
Vê o coração quebrar-se num temor,

Em mim, por timidez, fica omitido
o rito mais solene da paixão,
E o meu amor vejo enfraquecido,
vergado pela própria dimensão.

Seja meu livro do que diz meu peito,
que implora amor e busca recompensa.
Mais que a língua que mais tenha feito
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos é do amor o fado.

Willian Shakespeare

Postado por Goreti Maia - Complicada Perfeiitnha

Sexta-feira, Novembro 07, 2003


"O cara diz que te ama, então tá! Ele te ama.
Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado.
Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas.
Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de quilômetros.
A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e palavras.

Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você quando for preciso.
Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d'água. Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão...

Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente inteiro.
Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que tudo pode ser dito e compreendido.
Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo.
Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz,mas fala; quem não concorda, mas escuta.

Agora, sente-se e escute: Eu te amo não diz tudo! Eu te amo faz de tudo...""

Mário Quintana


Sexta-feira, Outubro 31, 2003


Cidade Vazia

Vem devagar que eu quero me sentir
Penetrando teu corpo, dentro de ti...
E depressa vem sem pressa
Minha presa indefesa...
Tu que em uma reza
Tuas curvas, tua tez pálida nudez
em minhas mãos sacanas e profanas
que tua inocência irá roubar
e tua virgindade... tirar!
só tua beleza não vai sobrar
pois tua infância acabou
tua beleza já é passado
passado na missa em pecado
tu já não é mais cabaço
é só... cidade!
que no meio da mata virgem
puta que te pariu!
de asfalto e aço


Postado por LostSoul
Ao Som de Chico Sciense e Nação Zumbi - A Cidade

Quarta-feira, Outubro 29, 2003


Dona Goretti, abandonaste nosso blogger!!! tudo bem eu posto algo hoje....

Tu Queres Sono: Despede-te dos Ruídos
Ana Cristina Cesar

Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.


Eu sou fã de Ana Cristina César e este texto fala exatamente do momento em que vivo, precisando de uma boa noite de sono e de bons sonhos...


Quarta-feira, Outubro 22, 2003


Se é verdade que a música é a poesia cantada então é perfeitamente cabível esta canção no post de hoje, ainda mais que é uma de muitas belas poesias cantadas de Chico Buarque, o mestre, Nenhum letrista brasileiro supera Chico Buarque na arte de escrever canções para personagens femininas. Certa vez ele afirmou: "fiz muitas músicas de encomenda para teatro. Nesses casos, mais do que os personagens, eu procuro saber quem é o ator ou a atriz que vai interpretá-las. Então, em minha cabeça, eu misturo a figura da atriz com a da cantora que gostaria que cantasse aquela música. Daí saíram canções como "Folhetim", que tem a cara da Gal. Mas às vezes a canção nem é para teatro, como "Olhos nos Olhos", que fiz para Bethania. Quando terminei "Olhos nos Olhos" eu disse: olha, esta música está a cara da Maria Bethania." Realmente uma composição melodramática como "Olhos nos Olhos" ("Quando você me deixou, meu bem / me disse pra ser feliz e passar bem / quis morrer de ciúme, quase enlouqueci... ") teria mesmo que ser cantada por Maria Bethania, tal como outras ("Sem Açúcar", "O Meu Amor", "Gota d'Água") que Chico deve ter feito pensando nela, pois até versos banais - como "olhos nos olhos, quero ver o que você faz / ao sentir que sem você eu passo bem demais" - ganham especial dramaticidade em sua voz rouca. Uma curiosidade: a canção não termina na tônica. Na tonalidade de lá maior, por exemplo, como está no livro Chico Buarque - letra e música, a melodia acaba na nota sol, sétimo grau da escala, o que dá uma sensação de que não termina.
Para mim, olhos nos olhos é a perfeita tradução de I Will Surviver (Glória Gaynor), o que nos diz ao fim de tudo que haja oque houver, nós sobreviveremos!!!

Olhos nos olhos

Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos no olhos, quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você passo bem demais

E que venho até remoçando
Me pego cantando
Sem mais nem porquê
E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você

Quando talvez precisar de mim
'Ce sabe a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos, quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz


Quinta-feira, Outubro 16, 2003


A Multa Municipal para o Lirismo Sentimental

o folhetim do Diário Popular de 24 de Junho lêem-se notáveis considerações de ordem moral. São em verso. O poeta dirige-se, na sua declamação solitária, a uma mulher.

Numa prosa anterior (prelúdio) escreve que a missão da arte é ensinar a amar (!) - e que na arte não entra realidade, justiça ou moral pública porque (acrescenta) a arte nada tem com os direitos civis. Colocado assim à larga, na anarquia da voluptuosidade e do lirismo, aí está o que o poeta expõe e ensina num jornal popular, com uma tiragem de 20.000 exemplares, que anda por cima das mesas e nos cestos de costura!

Começa por dizer:

- Que é bom amar no campo, à tarde e a sós!

Depois continua:

- Que prefere o campo, porque nas salas do mundo não lhe é dado beijar a mão dela às largas! Que o campo é livre e as sombras dão refúgio!....

Por fim acrescenta:

- Que queria que os raios cintilantes os cingissem a ele só com ela, erguidos em êxtase, longe de quanto é vil...

(Quanto é vil, na gíria da poesia lírica, é o mundo real, a família, o trabalho, as ocupações domésticas, etc.).

Dispensamo-nos de citar mais estrofes lascivas.

Aquelas bastam para legitimar as seguintes observações:


Nenhum jornal publicaria semelhantes teorias em prosa;

Nenhum homem que as escrevesse ousaria lê-las a sua filha, sem gaguejar, e sem comer palavras;

Nenhuma senhora que por acaso as tivesse lido ousaria citá-las.

Como se consente então a sua publicação em verso? A higiene não é só a regularização salutar das condições da vida física; nela devem também entrar os factos da moralidade. Se é proibido que um monturo imundo ou um cão morto corrompam o ar respirável das ruas - porque há-de ser permitido que um poeta, com as suas endechas podres, perturbe o pudor e a tranqüilidade virgem?

Há uma postura da Câmara que impõe uma multa a quem pronuncia palavras desonestas: porque não há-de ser igualmente proibido publicar idéias desonestas?

Um ébrio, um pobre homem a quem se não deu educação, a quem se não pode dar leitura, a quem quase se não dá trabalho, diz uma praga numa rua, ouvida apenas de três ou quatro pessoas, e vai para a cadeia ou paga uma multa de 3$000 réis. Um poeta lírico, esclarecido, aprovado nos seus exames, empregado nas secretarias, publica num jornal de cinqüenta mil leitores em letra impressa, permanente e indelével, uma série de desonestidades, e é apreciado, cumprimentado no Martinho, indigitado para uma candidatura!

Pedimos pois:

Ou que seja permitido livremente dizer na rua e no jornal pragas e desonestidades;

Ou que a multa da Câmara Municipal seja aplicada a todos - e que tanto o ébrio que não sabe o que diz à esquina de uma rua, como o poeta lírico que escreve, com reflexão e rascunho duma semana, ao canto dum jornal, paguem os 3$000 réis à Câmara, um pela sua praga, outro pela sua endecha.

Eça de Queiroz


Terça-feira, Outubro 14, 2003




Se de meu pensamento

Se de meu pensamento
tanta razão tivera de agravar me

quanta de meu tormento
a tenho de queixar me,
puderas, triste lira, consolar me.

E minha voz cansada,
que noutro tempo foi alegre e pura,
não fora assi tornada,
[com tanta desventura],
tão rouca, tão pesada, nem tão dura.

E ser como soía,
pudera levantar vossos louvores;
vós, minha Hierarquia,
ouvíreis meus amores,
que exemplo são ao mundo, já, de dores.

Alegres meus cuidados,
contentes dias, horas e momentos,
oh! quão bem alembrados
sois de meus pensamentos,
reinando agora em mim, duros tormentos!

Ai, gostos fugitivos,
ai, glória já acabada e consumida,
cruéis males esquivos,
que me deixais a vida
quão cheia de pesar, quão destruída!

Mas como não é morta
a triste vida já, que tanto dura?
Como não abre a porta
a tanta desventura,
que em vão co seu poder, o tempo cura?

Mas, para padecê la,
se esforça meu sujeito e convalece;
que, só para dizê la,
a força me falece,
e de todo me cansa e m`enfraquece.

Oh! bem afortunado,
tu, que alcançaste com lira toante,
Orfeu, ser escutado
do fero Radamante,
e cos teus olhos ver a doce amante!

As infernais figuras
moveste com teu canto docemente;
as três Fúrias escuras,
implacáveis à gente,
quietas se tornaram, de repente.

Ficou como pasmado
todo o Estígio reino co teu canto;
e, quási descansado
de seu eterno pranto
cessou de alçar Sisifo o grave canto.

A ordem se mudava
das penas que ordenava ali Plutão,
em descanso tornava
a roda de Ixião,
e em glória quantas penas ali são.

Pelo qual, admirada
a Rainha infernal e comovida,
te deu a desejada
esposa que, perdida,
de tantos dias já tivera a vida.

Pois minha desventura
como já não abranda üa alma humana
que é contra mim mais dura
e mui mais desumana
que o furor de Calírroë profana!

Ó crua, esquiva e fera,
duro peito, cruel, impedernido,
de algüa tigre fera,
da Hircânia nacido
ou dantre as duras rochas produzido!

Mas que digo, coitado,
e de quem fio em vão minhas querelas?
Só vós (ó do salgado,
húmido reino), belas
e claras Ninfas, condoei vos delas.

E, de ouro guarnecidas,
vossas louras cabeças levantando
sôbol` água erguidas,
as tranças gotejando,
sai alegres todas ver qual ando.

Saí em companhia
cantando e colhendo as lindas flores,
vereis minha agonia,
ouvireis meus amores,
assentareis meus prantos, meus clamores.

Vereis o mais perdido
e mais mofino corpo que é gerado;
que está já convertido
em choro, e neste estado
somente vive nele o seu cuidado.

Camões

Postado por Goreti Maia


Segunda-feira, Outubro 13, 2003




Time's Up

Já faz o quê? Um ano? Dois?
Que seja, dias, anos, séculos, dezenas de cada um deles.
Pensei em você todos os dias, com outros homens, quando escrevia, quando acordava, pensava sempre.
Você vai sempre estar lá, com seus olhos quase negros, com seu sorrisinho no canto da boca.
Sempre, não tenho medo de errar, sei que estará.
É tarde, eu sei, e nunca mais será como foi naquele dia, e no outro.
E se a culpa de ter acabado fosse de alguém, me ajoelharia diante das pedras e paus: minha, e só minha.
De ninguém mais além de mim. Mas não se engane, eu me viro muito bem sem você.
A não ser às vezes, quando ouço teu nome, ou quando ouço a negona me dizendo "nobody's fault but mine".
Mine. Minha, ela quis dizer. Mea Culpa. Mesmo sabendo, não me culpo.
Nunca daria certo, você nunca deixaria, você nunca abdicaria das águas calmas.
Só que a tempestade é dentro de você.


Tudo bem, dou as minhas flores pra ninguém, já que você não quis.
Dou as minhas noites pra ninguém, se você não as quiser.
Roubo frases de músicas gastas.


Tudo poderia ser muito simples, mas você preferiu tornar difícil.
Você resistiu, se debateu, levantou todos os escudos contra mim,
como se eu fosse o pior inimigo que já conseguiu colocar intrusos dentro da sua fortaleza.
Você não se rende.
Não se rendia.
Até agora.


Agora,
quando consegui mudar minha alma de lugar,
quando consegui finalmente tirar todo o teu gosto da minha boca,
que consegui apagar as marcas dos teus dentes nos meus mamilos,
agora que não sinto mais teus dedos me ensopando e me rasgando,
você chega com os olhos escorrendo e diz que também sofreu.
Diz que tudo que doeu em mim, doeu duas vezes mais em ti, o causa-dor.
Assumindo que foi fraco.
Dizendo tudo que eu precisava ouvir há dez segundos atrás.
Mas dez segundos se passaram e tuas frases que seriam a resposta
para minhas preces agora simplesmente me fazem crer que valeu a pena.
Valeu a dor, a insanidade, as lágrimas e a cegueira.
Saber que não estava a espancar uma parede com meu crânio,
que você sentiu todas as vezes que eu bati com o peito nos cacos de vidro me mostra que toda a dor é matéria-prima.
Todo corte cicatriza. Então, por favor, tira o dedo da minha ferida. Ela é minha agora, só minha. Time's up.

Clarah Averbuck


Postado por Goreti Maia

Quinta-feira, Outubro 09, 2003



Hoje minha amiga Dani que é uma amante de Clarice me transcreveu uma carta lindissima do livro que está lendo - Correspondência - organizado por Teresa Monteiro, da editora Rocco.
Trecho do email:
"Compartilho uma das cartas trocadas entre Clarice e o
Embaixador Maury Gurgel Valente (... nessa época - 1942 -
eles eram tão somente enamorados. Casaram-se em meados de
1943). Que sou apaixonada por Clarice, não é novidade! Mas
só agora, através de suas cartas, entendi o casamento com
esse homem, aparentemente, sem afinidades...sempre submerso
na burocracia do ofício de consulado". Bjs, Dani.



[ Carta de Clarice a Maury Gurgel Valente, incompleta e sem data]

Existe também...sei lá o quê. Talvez qualquer coisa que
valha a pena. Pelo menos pra olhar do ônibus e sorrir.
Ou se não, porque não se entregar ao mundo, mesmo sem
compreendê-lo? Individualmente é absurdo procurar a solução.
Ela se encontra misturada aos séculos, a todos os homens, a
toda a natureza. E até o teu maior ídolo em literatura ou em
ciências nada mais fez do que acrescentar cegamente + um dado
ao problema.
Outra coisa: o que você, você individualmente, faria de
especial se não houvesse a ruindade do mundo? A ausência dela
seria o ideal para todos os homens , em conjunto: Para um só,
não bastaria. Garanto-lhe que sempre haveria a arte de evasão
e as preces e as fugas para Bach.
Como diria o meu amigo Tasso da Silveira: tudo vem do
pecado original...
Alô, bem. Não creio que tenha tocado exatamente no ponto
principal. E suponho que esta carta já o encontre em outra
disposição e seja inútil, o que ele (sic) seria aliás de
qualquer modo.
Quanto a mim estou mais ou menos O.K. Não consegui no
entanto soltar minhas rédeas. Planos, programas, consciência,
vigilância. O que vale é que misturada a tudo isso, está a
vida que não pára.
Um abraço de
Clarice

P. S. " Nunca vi uma alma tão feia quanto a minha letra"
*************

[ Carta-resposta de Maury Gurgel Valente a Clarice]

9/1/42

Olá, Marquesa de Maricá

Antes de tudo preciso agradecer aos conselhos que me foram
tão dramaticamente dispensados. Você usou grandes palavras,
fortes generalizações, falou na beleza tétrica da ruindade do
mundo, comparada à música moderna, que horripila mas atrai,
nos meus ídolos científicos e literários, cada um, como [.],
trazendo uma contribuição à Dúvida Universal; no sofrimento
como Motor Imóvel da produção artística, além de outras
coisas gigantescas.
Confesso que, á medida que eu ia lendo, fui ficando
pequenino, pequenino.
É como se o alfaiate fizesse uma roupa para o Primo
Carneca (sic) e a mandasse para mim.
Não, meu bem, sobra muito pano. Estou abafado. Que vou
fazer com isso?
Você me aponta uma solução " Misturada aos séculos, a
todos os homens, a toda a natureza"? Sinto até vontade de
voltar aos tempos do Joel Miranda, o tal de Minas, e pedir
licença a você para publicar a sua carta em todos os jornais.
Aquela carta não foi para mim, foi um panfleto dirigido a
toda a HUMANIDADE. Quem sabe se esclarecidos pela luz forte
que dela irradia, não deixariam os exércitos de lutar e se
uniriam todos os homens, para, num esforço único, se lançarem
à busca da SOLUÇÃO, misturada ao Cosmos.
Estou imaginando que intensidade não teriam as suas
palavras, ditas por Orson Welles, no tom daquele jornal do
C.Kane. Papagaio, que sucesso!
Não, benzinho, eu sou muito mais simples do que isso.
Minha angustiazinha mofina não está ligada aos grandes
problemas.
Oh! Deusa Clarice!
Sê clemente! Não pronuncie contra mim, com ar tão
solene, a sentença da minha condenação eterna.
Deixa-me viver pacatamente como bom sujeito. Eu quero me
preocupar com o padeiro, com o leiteiro e com os dentes do
guri.
Não me jogues, a mim tão pequenino e infantil, nessa rua
de monumentos colossais, onde o Edifício da Noite é pixote,
que se chama VIDA.
Não me aterrorizes com os holofotes antiaéreos que
dirigiste contra mim - eu vôo muito baixo - é só estender a
mão pra me apanhar.
No momento eu só tenho um grande problema - é saudade de
você. O resto é bobagem.
Peço à "Fessora" assinalar todas as expressões infantis
das minhas cartas, para que eu me possa corrigir.
Enquanto isso, vá me estendendo a mão, que eu preciso
dela. Se você não diz nada, é porque há muita coisa dentro de
você. Eu gostaria que você se confiasse um pouquinho mais a
mim. É isso que eu chamo de jogo unilateral. Não pense que eu
ando atrás só de "belas coisas simples". Eu quero qualquer
coisa, desconexa, contraditória, insegura, não tem
importância, desde que seja sua. As definições redondas e
grandiloqüentes, as coisas categóricas e acabadas não me
satisfazem, porque eu não sou assim.
Se não quiser dizer nada, também não faz mal, basta me
estender a mão.
Depois de escrever tanto, fiquei melhor; a verdade é que
tenho lido, ouvido música e estou até com vontade de estudar
Direito Civil.
Tenho pouco papel e não há jeito de arranjar mais, no
momento, por isso escrevo nas costas das folhas.
Há trechos estupendos do Morgan, tão lúcidos que eu
quase arranco a página e mando pra você. Li hoje de manhã,
uma passagem , tão interessante e a propósito, que vou
reproduzir: One night at Royan, the night after her walk
through the woods whith Madeleine, Courcelet had spoken of
George Sand, the conversation had run to music and to Chopin,
and Tempbrand (sic) had attacked the Romantics, saying that
they were sentimental, that they lied.
Cugnot had taken fire, not in defence of the Romantics,
but in cometer(sic) - attack upon those whose catchword for
all feeling but hatred was "sentimentality". He had asked
which was the greater lie - to be sentimental or to be
paralysed by the fear sentimentality?
(descobri mais papel no fundo da caixa, posso me
espraiar) continua Morgan: Was it not better, in art, to be
wrong in boldness than wrong fear? And Courcelet had said: "
If I may be allowed to speak with authority, as one whose
whole life is a lie and certainly not a romantic one (
Courcelet é intelectualizado 100%), I suggest that the
greatest of lies is by self-consciousness to freeze the
heart. To be incapable of surrender is the final cowardice.
The priests call it spiritual pride."
Vou parar aqui, senão seria capaz de copiar o livro todo
e com que letra...
Um abraço, meu bem, e fica certa de que tens um lugar
garantido no céu, por suportares toda esta xaropada.

P.S. " Estou até em preparativos para o carnaval.
Vou ao cinema, depois do jantar, ver "Meu marido maluco", que
dizem ser boa comédia".






Terça-feira, Outubro 07, 2003


Uma Alma Perdida em um aquário


"Pega-se um anjo, amigo desses invisíveis que te fazem companhia, amigo que te oferece ajuda, a mão que se estende aberta de braços abertos. Tome-se o anjo, deixe-o se embriagar com o veneno de suas palavras, destilado com sua inveja e rancor. Conspire e tente sua confiança. Faça-o cansar suas asas, perder seu vôo. Deixe-o em lenta agonia, duvide da missão divina que lhe foi atribuída. Torne seus sonhos desesperança. Durma sem ao menos lhe dar sorriso, ignore seu olhar, faça de sua cantilena tristeza infinita. Deixe-se dilapidar por vícios e equívocos. Amaldiçoe-o, torne-se impassível diante da dor. Dispense toda benevolência que porventura ainda resista. Não ofereça seu amor. Risque para sempre a palavra perdão.

Nunca esqueça. Anjos sempre retornam ao lar. Hoje ele pousou na minha morada."

Retirado do Blog Batom na Cueca


Menina, mulher amante

Menina, mulher amante,
com seus olhos brilhantes,
quero ter você por um instante,
e beber teu prazer constante...
Beijar o teu corpo gostoso,
lamber seu pescoço,
e ser grudento aos poucos...
Se te quero tanto assim,
nesta ilusão tão ruim,
é porque para mim,
és um castigo sem fim...
Na minha serra querida,
tu és a minha guia,
te quero nua de dia,
nem que seja por fantasia...

Adolfo Capella


Postado por Lost Soul
Ao som de Queen - Love of my life

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